
O sinal de rejeição que empurra o adolescente para a Wicca
Marinka van der Zee tinha 12 anos quando descobriu onde se escondia do mundo. Os colegas faziam bullying na escola. A floresta virava esconderijo. E com o tempo, a floresta se tornou altar. Ela entrou na Wicca, religião que mistura espiritualismo com rituais ocultistas, e passou anos usando tarô, cristais e um pingente de pentagrama que nunca tirou do pescoço. A conversão chegou pela oração. Um namorado cristão recitou o Pai-Nosso pelo telefone. ‘Senti como um cobertor grosso e macio me envolvendo’, ela descreveu ao Guiame. ‘Nunca senti essa paz antes.’ O testemunho circulou. Mas o que importa está antes da oração.
O que é a Wicca e por que ela chega antes dos 15 anos
A Wicca é uma religião neopagã surgida na Inglaterra nos anos 1950, misturando espiritualismo, conexão com a natureza e rituais ocultistas. Chegou ao Brasil muito antes de se tornar tema de debate familiar: a descoberta acontece pelo TikTok, pelo Discord e por séries de fantasia. O acesso é simples. A entrada é envolvente. Rituais com velas e cristais constroem uma estética que funciona bem no Instagram, e comunidades online oferecem o que qualquer pessoa em fase de descoberta quer sentir: que existe um grupo que a entende.
O caso de Marinka não é exceção. Ela começou aos 12 por causa do bullying. A floresta era o único lugar onde se sentia segura. A Wicca nomeou esse refúgio e o transformou em pertencimento. Outros entram pela solidão, pela curiosidade com o sobrenatural, por séries como O Mundo Sombrio de Sabrina, que romantizam rituais como forma de poder pessoal. O padrão é consistente: a religião oferece um grupo que aceita, uma narrativa que transforma a diferença em dom e a sensação de controle sobre o que parece fora do controle.
Da floresta ao Pai-Nosso: o que aconteceu com Marinka van der Zee
A virada na história de Marinka veio de um relacionamento. Ela conheceu seu namorado cristão pela internet. Os dois não tinham se visto pessoalmente quando ele começou a orar com ela pelo telefone. Numa dessas orações, ele recitou o Pai-Nosso. Marinka sentiu algo que descreveu como ‘um cobertor grosso, macio e quentinho me envolvendo’. Uma paz tomou o lugar da inquietação de anos. ‘Nunca senti essa paz antes. Deu vontade de chorar’, ela relatou.
A partir dali, ela tirou o pingente de pentagrama que usava desde os 13 anos. Começou a ler a Bíblia e a frequentar uma comunidade onde encontrou acolhimento. Relatou que a ansiedade diminuiu e o humor estabilizou. ‘Posso dizer com certeza que sou cristã. Me sinto amada e sou imensamente grata’, declarou ao Guiame. A jornada de décadas pelo ocultismo terminou não por um debate teológico. Terminou por uma oração de alguém que se importava com ela.
Por trás da floresta, uma pergunta que Marinka não sabia formular
Mas por trás desse testemunho há algo que todo adulto que convive com adolescentes precisa enxergar. Marinka não entrou na Wicca por rebeldia ou curiosidade passageira. Ela entrou porque estava sofrendo. O bullying criou uma ferida, a natureza foi o primeiro curativo disponível e a Wicca foi o nome que aquela busca ganhou. A pergunta de fundo não era ‘como fazer rituais’: era ‘onde eu me encaixo?’. Essa pergunta não tem ideologia. Tem dor.
Esse é o padrão que a psicologia do desenvolvimento identifica como crise de pertencimento na adolescência. Erik Erikson descreveu essa fase como o momento em que o jovem precisa responder ‘quem sou eu?’ de algum jeito, seja num grupo saudável ou no primeiro que abrir a porta. Quando a família não oferece base segura, quando a escola machuca e quando nenhum adulto de referência nomeia a dor, alternativas espirituais preenchem o vácuo. Não por serem convincentes teologicamente. Por serem as primeiras a dizer: ‘você pertence aqui.’
O que a Wicca dá ao adolescente que o bullying tirou
Como psicólogo, preciso nomear o que acontece aqui. A Wicca oferece três necessidades básicas que o bullying destroça: pertencimento (um grupo que aceita como sou), agência (rituais que devolvem a sensação de controle sobre a própria vida) e narrativa (uma história que transforma a diferença em dom, não em defeito). O adolescente que sofre rejeição, que se sente invisível ou que carrega a sensação de ‘não encaixo em lugar nenhum’ encontra as três. Em linguagem que fala diretamente com a dor, sem pedir credencial espiritual prévia.
A entrada para o ocultismo raramente acontece depois de uma pesquisa ideológica. Acontece porque o adolescente estava com frio e a Wicca abriu a porta primeiro. O dado que importa para o líder de adolescentes é este: se a comunidade cristã não oferece pertencimento real nem nomeia a dor real, o adolescente vai buscar em outro lugar. Por uma necessidade humana básica: pertencer. A pergunta pastoral certa é ‘como abrir a porta antes que o ocultismo abra a primeira’.
O que o líder pode fazer antes que o ocultismo fale primeiro
O testemunho de Marinka ensina algo prático: ela se converteu através de um relacionamento. A presença de uma pessoa que orava com ela foi o que nenhum ritual havia sido. Isso tem implicação direta para quem trabalha com adolescentes: o que fecha a porta para o ocultismo é a presença. O líder que percebe o adolescente quieto no canto e pergunta ‘como você está de verdade?’ está sendo o primeiro refúgio, antes que a floresta precise virar altar.
Três sinais práticos que merecem atenção imediata:
- Isolamento repentino do grupo, especialmente após conflito com colegas ou episódio de rejeição
- Mudança de linguagem nas redes: símbolos, referências a ‘energia’, ‘manifestação’, interesse crescente em comunidades de espiritualidade alternativa
- Afastamento gradual dos encontros com justificativas vagas, junto a uma nova busca por identidade espiritual fora da fé cristã
O Pai-Nosso que converteu Marinka não era uma técnica pastoral. Era a oração de quem se importava com ela. O líder que constrói esse tipo de presença com o adolescente que sofre está fazendo teologia encarnada, não apenas cumprindo roteiro ministerial. Se você quer aprofundar o entendimento sobre o que esta geração busca e como acompanhá-la com inteligência emocional e base bíblica, o livro DNA da Geração Digital foi escrito para isso. Disponível em ia.adriellemos.com.br/produto/livro-dna-da-geracao-digital/.
Perguntas frequentes
O que é a Wicca?
A Wicca é uma religião neopagã surgida na Inglaterra nos anos 1950, que mistura espiritualismo, conexão com a natureza e rituais ocultistas como uso de cristais, tarô e cerimônias baseadas nos ciclos naturais. Chegou ao Brasil principalmente via internet e cultura pop.
Por que adolescentes se interessam pela Wicca?
Adolescentes geralmente se aproximam da Wicca em busca de pertencimento, identidade e sensação de controle diante de situações de rejeição, bullying ou solidão. A religião oferece comunidade, uma narrativa que transforma a diferença em característica especial e rituais que devolvem agência sobre a própria vida.
Como identificar se um adolescente está se aproximando do ocultismo?
Sinais de alerta incluem isolamento repentino do grupo social habitual, mudança de linguagem com terminologia espiritual alternativa nas redes sociais e afastamento gradual de práticas de fé cristã com interesse crescente em espiritualidade de outra natureza.
É possível um adolescente sair do ocultismo?
Sim. O testemunho de Marinka van der Zee mostra que a saída raramente ocorre por argumento teológico. Ocorre por relacionamento, pertencimento genuíno e por encontrar, em outro lugar, as três necessidades que o ocultismo tentava suprir: aceitação, agência e narrativa de identidade.
Como o líder de adolescentes deve abordar o tema da Wicca?
Com curiosidade pastoral antes de confronto teológico. A pergunta inicial não é ‘por que você está nisso?’ mas ‘o que você está buscando?’. A Wicca é o sintoma; a dor de não pertencer é a causa. Abordar a causa cria ponte; confrontar só o sintoma cria distância.
O que a conversão de Marinka van der Zee ensina sobre evangelismo com adolescentes?
Que o evangelismo mais eficaz com adolescentes não é o de argumento, é o de presença. Marinka foi alcançada por um namorado que orou com ela pelo telefone, não por uma apologética elaborada. Presença, oração e relacionamento genuíno foram os elementos da conversão.
Fontes consultadas
- Ex-bruxa se rende a Jesus após orar o ‘Pai Nosso’: ‘Senti paz’ – Guiame
- Teoria do Desenvolvimento Psicossocial — Erik Erikson – American Psychological Association
- Religious Identity Among Teens and Young Adults – Barna Group
Adriel Lemos é pastor e psicólogo (Assembleia de Deus, Criciúma/SC), autor de quatro livros, entre eles o best-seller Ideologia de Gênero pela CPAD, e referência em liderança de adolescentes e jovens na era digital. Acompanhe também no Instagram: @adriellemos.



