
Doença mental na igreja: o erro que faz o adolescente se calar
Uma das vozes mais reconhecidas do louvor cristão brasileiro participou do podcast Mais Forte, de Karina Bacchi, e disse algo que poucos esperavam ouvir com tanta franqueza. Ana Paula Valadão afirmou que comunidades evangélicas podem ser ‘lugares muito cruéis’ para quem convive com doença mental. O debate em torno da doença mental na igreja não é novo, mas ganhou outro peso com a declaração dela: quando um transtorno afeta o emocional ou o funcionamento racional de alguém, essa pessoa passa a ser tratada, segundo Valadão, como um ‘crente de categoria menor’. Por que uma afirmação assim ainda causa tanto desconforto em 2026?
O que Ana Paula Valadão disse no podcast com Karina Bacchi
Valadão compartilhou no episódio um elemento pessoal: ela reconhece em sua família materna uma estrutura genética com vários casos de depressão. Esse contexto deu peso ao que veio a seguir. Para ela, a postura de muitas comunidades cristãs diante do sofrimento psíquico segue uma lógica contraditória: um crente com dor de dente toma antiinflamatório sem questionamento. Para um transtorno de ansiedade ou depressão, a resposta costuma ser bem diferente e muito mais dura.
Valadão foi além e tocou em outro ponto sensível: a tendência de atribuir qualquer condição de saúde ao campo espiritual de forma indiscriminada. ‘Tem gente falando que autismo é demônio’, disse ela. ‘Gente, não tem nada disso.’ A declaração tem peso porque não veio de alguém de fora desse cenário, mas de uma pessoa com décadas de trajetória dentro dele. Isso muda a natureza da crítica.
A lógica que transforma sofrimento emocional em sinal de falha espiritual
A questão levantada por Valadão existe há décadas no ambiente evangélico brasileiro. Quando uma pessoa adoece fisicamente, o tratamento médico é aceito sem questionamento. Quando ela adoece emocionalmente, o raciocínio muda: surgem perguntas sobre comportamento, sobre pecado não resolvido, sobre o que ela está fazendo de errado. O sofrimento emocional é lido como evidência de falha, não como uma condição que pede cuidado.
Essa lógica tem raízes históricas em como certas tradições interpretaram a relação entre alma e mente. O resultado prático é que espaços que poderiam ser redes de apoio acabam virando ambientes de julgamento silencioso. Quem sofre aprende a esconder o sofrimento: revelar uma crise dentro da comunidade tem um custo alto, e quem já pagou esse custo uma vez raramente volta a tentar.
O que a fala de Valadão revela sobre o adolescente que sofre em silêncio
Valadão tem décadas de trajetória, nome consolidado e uma comunidade que a acompanha há anos. Mesmo assim, ela descreveu o ambiente da sua própria tradição como ‘muito cruel’ para quem tem doença mental. Essa declaração coloca uma pergunta direta para todo adulto que convive com adolescentes: se uma liderança reconhecida sente esse peso, o que experimenta um adolescente de 13 ou 14 anos que está em crise e ainda está construindo sua identidade cristã? A resposta muda completamente o que o líder precisa fazer.
Dados do Cidacs/Fiocruz mostram que as notificações de autolesão entre pessoas de 10 a 24 anos cresceram 29% ao ano entre 2011 e 2022 no Brasil. Essa geração não está apenas sofrendo mais. Ela está sofrendo dentro de contextos que, com frequência, não têm o vocabulário nem a abertura para acolher esse sofrimento. O adolescente com ansiedade não some do grupo porque perdeu a convicção. Ele some porque aprendeu que revelar o que sente tem um preço que não quer pagar.
O líder que sem perceber ensina o adolescente a esconder a dor
Como psicólogo, percebo esse padrão com frequência: o adolescente não para de sofrer quando o sofrimento psíquico é minimizado pela liderança. Ele para de falar. A diferença entre os dois é enorme e raramente notada. Quando um líder responde a uma confissão de ansiedade com ‘ora mais’ ou ‘isso é coisa do inimigo’, não está ajudando o adolescente a superar o problema. Está ensinando que aquele espaço não é seguro para o que ele sente de verdade.
O apóstolo Paulo escreveu em Gálatas 6:2: ‘Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.’ O verbo levar pressupõe que a carga existe, é real e tem peso. Minimizar a doença mental como coisa da cabeça ou falta de oração é, na prática, recusar-se a levar a carga. O adolescente percebe isso, mesmo que não verbalize. Essa percepção o isola exatamente dentro do espaço que deveria ser sua maior rede de apoio.
Como criar na reunião um espaço onde doença mental não vira tabu
A primeira mudança não exige formação clínica: exige linguagem. Na próxima reunião de adolescentes, use frases que normalizem o sofrimento emocional como parte da experiência humana real. Jesus, no Getsêmani, disse que sua alma estava muito triste, até a morte (Mateus 26:38). Tristeza profunda não é sinal de pouca espiritualidade. É parte do que significa ser humano. Quando o líder nomeia isso com naturalidade, o adolescente entende que existe espaço para o que ele sente.
A segunda mudança é prática: substitua a pergunta ‘o que você fez de errado?’ pela pergunta ‘como você está, de verdade?’. Essa troca parece pequena, mas recalibra o que o adolescente aprende sobre o que é bem-vindo naquele grupo. Com consistência ao longo do tempo, o líder que faz essa pergunta se torna o adulto a quem o adolescente vai recorrer quando a crise aparecer, em vez de mais uma voz que ele precisa proteger de suas crises.
Ana Paula Valadão não expôs a crueldade do ambiente religioso por acidente. Ela descreveu, com palavras simples e diretas, o que milhares de adolescentes cristãos sentem toda semana mas não têm espaço para dizer. O papel do líder de adolescentes não é substituir o psicólogo: é ser o adulto que não faz o adolescente se sentir de menor quando está em sofrimento. Se você quer aprofundar como cuidar da saúde emocional dos adolescentes que você lidera, o livro DNA da Geração Digital aborda como o líder forma o adolescente inteiro, inclusive nas crises mais difíceis. Disponível em ia.adriellemos.com.br/produto/livro-geracao-digital/.
Perguntas frequentes
O que Ana Paula Valadão disse sobre doença mental na Igreja?
No podcast Mais Forte, com Karina Bacchi, Valadão afirmou que a Igreja pode ser ‘um lugar muito cruel’ para pessoas com doença mental. Ela também disse que cristãos com transtornos psíquicos são frequentemente vistos como ‘crentes de menor categoria’ e criticou a tendência de atribuir toda condição de saúde a causas espirituais, incluindo casos de autismo.
Por que algumas igrejas tratam doença mental como falta de fé?
Essa postura tem raízes históricas em como certas tradições cristãs interpretaram a relação entre alma, mente e comportamento. Quando a doença é física, o tratamento médico é aceito sem questionamento. Quando é emocional, a tendência é buscar explicações espirituais. Esse duplo padrão perpetua o estigma e afasta quem mais precisa de acolhimento.
Como o líder pode identificar um adolescente sofrendo em silêncio?
Sinais comuns incluem afastamento gradual do grupo, mudanças de comportamento, respostas evasivas e evitação de conversas pessoais. O adolescente que aprendeu que o sofrimento não é bem-vindo raramente vai verbalizar uma crise. Por isso, a pergunta ‘como você está, de verdade?’ feita com consistência é mais eficaz do que esperar que ele tome a iniciativa.
É errado um adolescente cristão buscar ajuda psicológica?
Não. Buscar apoio psicológico não contradiz a fé cristã. Jesus expressou angústia profunda no Getsêmani (Mateus 26:38) e Paulo orientou os cristãos a levar as cargas uns dos outros (Gálatas 6:2). Cuidar da saúde mental é parte do cuidado com o ser humano que Deus criou, não evidência de espiritualidade fraca.
O que fazer quando um adolescente revela depressão para o líder?
Acolha sem minimizar e evite frases como ‘ora mais’ ou ‘isso vai passar’. Pergunte se ele já contou para os pais e oriente sobre a busca por apoio profissional. O papel do líder é ser um adulto seguro que não faz o adolescente se arrepender de ter falado, e quando necessário ajuda a construir a ponte para quem pode oferecer ajuda clínica.
Qual versículo ajuda o líder a falar sobre sofrimento emocional com adolescentes?
Dois versículos são especialmente úteis. Em Mateus 26:38, Jesus diz que sua alma está muito triste, até a morte, mostrando que angústia profunda não é sinal de pouca fé. Em Gálatas 6:2, Paulo orienta a levar as cargas uns dos outros, pressupondo que a carga é real. Usar esses textos na reunião normaliza a conversa sobre saúde emocional dentro da fé cristã.
Fontes consultadas
- ‘Ter doença mental não faz o cristão ser de menor categoria’, diz Ana Paula Valadão – Guiame
- Autolesão em adolescentes cresceu 29% ao ano entre 2011 e 2022 no Brasil – Cidacs/Fiocruz
- The State of Pastors: burnout, solidão e saúde mental no ministério – Barna Research
Adriel Lemos é pastor e psicólogo (Assembleia de Deus, Criciúma/SC), autor de quatro livros, entre eles o best-seller Ideologia de Gênero pela CPAD, e referência em liderança de adolescentes e jovens na era digital. Acompanhe também no Instagram: @adriellemos.
Foto: Daniel Monteiro no Unsplash



